Vídeo | Sorocabano Conta Como Foi a Maratona K42 em Meio às Cinzas de Vulcão

Márcio Kalach já está de volta a Sorocaba. Depois de chegar em 20º lugar na sua faixa etária e numa ótima colocação entre os brasileiros que participaram da Salomon K42 em Villa La Angostura na Patagônia Argentina, Márcio pôde sentar e colocar no papel o que foi essa incrível aventura, segundo palavras dele, a prova mais emocionante da qual participou. O ingrediente a mais nessa edição da Salomon K42, que em condições normais já é dificílima, afinal são 42km de corrida em meio a região íngreme e pouco explorada da Patagônia, foram as cinzas do Vulcão Puyehue que não param de serem lançadas na atmosfera desde Junho último:
Quando fechei a inscrição dessa grande Maratona de Aventura eu não imaginava que iria ser tão especial, claro que no momento imaginei o desafio pelos problemas que eles passaram pois, assim como todos, acompanhei desde 04 de junho quando o Vulcão Puyehue situado no Chile, a 30 km de Villa La Angostura, entrou em atividade e continua até hoje… lançando cinzas para muitos lugares, inclusive o Brasil ,mas eu não imaginava a quantidade de cinzas que foram lançadas em Villa La Agostura e fiquei surpreso com o que encontrei, dando para ter uma noção do eles passaram. A todo o momento você encontra caminhões e caminhões carregados de cinzas tiradas das ruas, das casas… o tempo todo caminhão pipa jogando água para baixar a poeira (Confira no Vídeo) .


Maratona K42 Em Meio às Cinzas do Vulcão Puyehue | Villa la Angostura Patagônia-ARG | 12.NOV.2011

Todos unidos trabalhando o tempo todo bem… voltando a viagem, uns dias antes de embarcar recebi um e-mail da agência oficial do evento dizendo que não seria possível pousar em Bariloche porque eles entraram em reforma para ampliação, vão retomar suas atividades somente em março de 2012, e eu teria que pousar em Esquel que fica a 380 km de Bariloche, o governo argentino iria fornecer o transporte de ônibus para Bariloche que leva umas 4 horas de viagem… chegando em Bariloche encontraria um transfer para Villa la Angostura que levaria mais 1 hora de viagem.
Nesse e-mail estavam dizendo bem claramente sobre toda essa trajetória e dizendo que poderia cancelar ali mesmo, apenas assinando, eles devolveriam o valor integral da inscrição da prova, do vôo e do hotel. Como todos já sabem eu neguei e iria viajar de qualquer jeito. Foi aí que começou a maratona.
Cheguei em Guarulhos dia 09/11 às 5 da manhã, meu vôo estava marcado para as 7hs, já entrei na fila do check-in que não andava nunca, quando fui ver o que estava rolando estavam todos nervosos, a companhia aérea Aerolineas dizia que ninguém ia voar naquele dia pois estavam sem tripulação. Não me estressei, mesmo assim continuei na fila e apenas comentei ao agente que teria que estar no Aeroparque-Buenos Aires às 11hs pois eu iria embarcar para Esquel às 12:20, até que conseguiram me encaixar em um vôo da Gol com embarque imediato. Cheguei em cima da hora em Buenos Aires para embarque imediato com destino a Esquel, único vôo naquele dia, se perdesse estava ferrado mas consegui embarcar. Chegamos em Esquel. Foi a hora que conheci o Mauro, Adevan, Zélia e Leilane na pausa para o lanche e já entramos em um ônibus para Bariloche. Conheci também um casal que lembrava bem meus pais, sentamos lado a lado e conversamos muito até que descobrimos que somos da mesma cidade e quase vizinhos, eles curtiram uns dias em Buenos Aires e estavam indo para Bariloche. Mais 4 horas com um visual maravilhoso…cheio de montanhas e suas geleiras no topo, estrada deserta, demais!
Chegamos em Bariloche e cada um seguindo com seus tranfers até que entrei em um carro com mais 2 rapazes, Cláudio de Dourados e Ricardo de Brasília, ali mesmo saiu uma grande amizade, andamos juntos todos os dias, almoçamos, jantamos e compramos. Finalmente chegamos em Villa La Angostura!
Há males que vem para o bem não!?Nessa confusão toda conheci pessoas maravilhosas.
Chegou o grande momento, a Salomon K42! No dia 11/11 aquela ansiedade, atletas aglomerados no centro de convenções na hora da retirada do kit, noite no Congresso Técnico da prova e tudo mais… bora dormir. Claro, acordei antes de o relógio despertar pra variar um pouco.Trocamos mensagens entre todos os amigos para nos encontrarmos na frente do meu hotel, onde seria a largada da prova. Encontrei com Ricardo, Zélia, Leilane, Adevan, Mauro, mas cadê o Cláudio??? Sumiu o rapaz… achamos que ele tinha desistido. Não nos vimos antes e nem durante o percurso, só depois mesmo. Foi dada a largada! Logo no começo encontrei com o Adevan, muita concentração para essa prova e vamos lá. Mal sabia o que vinha pela frente… a cidade toda acordada para esse grande evento, povo local na rua, na frente de suas casas mandando aquela energia boa, aplaudindo, crianças dando frutas pelo percurso, água e seus sorrisos contagiantes. Era o que dava toda força para seguir em frente. Eu procurei não me preocupar muito com as subidas fortes antes das provas, nem vi muito o percurso no mapa, apenas a altimetria e já sabia o que vinha pela frente. Logo na primeira subida já deu para sentir bem, uma pena não poder desfrutar da beleza dos lagos pois o céu estava coberto de cinzas, fui informado que além dos dias próximos a 4 de junho, que foi quando o vulcão entrou em atividade, o dia mais crítico foi no dia 12/11, exatamente no dia da prova. Sem condições para respirar, mais este desafio… o percurso todo com bandana no rosto e eu não conseguia correr com óculos pois embaçou e não tinha como limpar, muitas cinzas na vista, mais uma dificuldade. Corremos a prova toda com o solo carregado de cinzas, em muitos pontos, principalmente no bosque era como correr na areia fofa de praia. Quando chegamos ao centro de Sky Cerro Bayo eu não acreditei no que vi: 5 km de subida íngreme! Até andando era difícil, subindo praticamente de quatro e mesmo assim, difícil! Quando cheguei ao topo foi uma alegria só, sabendo que a partir dali faltava pouco, estava no km 30, à vista tinha um posto de hidratação, uns 50 metros… empolguei-me e fui correr na vontade de comer algo e hidratar, foi quando veio a cãibra, quase caí no chão de dor, muita dor, saquei um comprimido de sal e tomei uma caramanhola de água, muitos atletas querendo ajudar, mas consegui, correndo, mancando, chegar ao posto onde acabei encontrando com o grande Adevan e mais uns três brasileiros. Comemos, hidratamos, tiramos umas fotos e seguimos… ladeira abaixo, por um momento pensei que iríamos descer só pela estrada foi quando vi um rapaz no meio da estrada sinalizando para entrar no meio da mata, uma trilha, mais descida pela cinza fofa, mas aquela vontade de chegar… eu corri, desci como um louco, saímos na rodovia e muitas pessoas aplaudindo e gritando: “2km hasta llegada!” A emoção começou a tomar conta desse corpo, pensamentos, a energia de todos vocês que me acompanharam fez seguir em frente com mais força, faltando 1 km, a poucos metros do centro, comecei sentir a cãibra voltar, uma argentina ao meu lado não deixou eu parar…chegamos em Villa la Angostura, todos ali na rua ,mesas dos bares, bistrô, policiais sinalizando e sorrindo até que faltava poucos metros, quase na chegada eu ouço um grito: “VAI MÁRCIOOOO!!!” Quando olhei para ver quem era vi a Zélia, Leilane o Mauro felizes gritando: “VAIIIII!!” Foi como um empurrão para cruzar a linha de chegada… a emoção veio junto com toda a adrenalina, endorfina, serotonina e tudo mais…até que sumiram todas as dores ou cãibras…foi a prova mais emocionante que eu já fiz!
Só pelo fato de estar ali, sabendo que estávamos ajudando de alguma forma a reconstrução da cidade, a trazer movimento para todos eles e o sorriso de volta na face deles já valeu por tudo, essa foi a minha grande medalha.
Ainda continuei pela cidade por mais três dias após a prova, sai conhecer tudo pedalando, fiz muitas fotografias e boas amizades por lá. Muitas experiências na bagagem.
Na volta… foi mais uma maratona, o transfer até Bariloche, depois o Transfer até Esquel, chegando em Buenos Aires mais um grande problema, horas e horas esperando a torre de controle voltar a funcionar porque eles resolveram entrar em greve, nenhuma aeronave poderia decolar…mas Graças a Deus deu tudo certo e estou de volta a essa grande cidade que eu amo que é Sorocaba, de volta à família, ao trabalho e aos treinos.
Muito obrigado a todos pela força!
Um grande abraço
Márcio Kalach

Além de percorrer os 42km da prova, o sorocabano Márcio cultivou amizades e conheceu até onde vão seus próprios limites, descobriu que o esporte pode não só mudar as pessoas individualmente, melhorando-as como ser social, mas também pode mudar toda a paisagem de uma cidade que estava triste e abatida pelas cinzas do Vulcão. Isso é o esporte! FOTO: Arquivo Pessoal/Márcio Kalach/Facebook

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